A Amiga da minha filha

Esta historia é totalmente fictícia; acordei, tive a ideia e não achei justo comigo não escrever uma estória tão legal que saiu da minha própria cabeça...

Kika Lima


            Algumas vezes por ano minha filha vem me visitar, passar uma semana na minha casa onde ela cresceu com todo amor e carinho que os filhos merecem. Há alguns anos atrás começou a trazer uma amiga dela sempre que vinha aqui a apresentava como sua amiga mas, depois de um tempo comecei a perceber algo mais que amizade; não comentei nada com elas, achei que se tivesse que me contar seria de livre e espontânea vontade, mas, nesse dia não pude me controlar.

            Era a terceira vez no ano que vinham me visitar e eu sentia a angústia das duas todas as vezes que vinham, como se tivessem um segredo que não podiam mais esconder (o que era totalmente verdade). Então, um dia antes de elas chegarem, eu decidi que não podia mais vê-las daquele jeito; se elas não tomassem a iniciativa pra me contar eu tomaria a iniciativa de perguntar.

            Enfim, elas chegaram num sábado lindo e ensolarado, a mesma coisa de sempre: sorrisos e perguntas do tipo como foi a viagem, como estava a estrada, como estava o tempo e essas coisas que pais preocupados perguntam quando os filhos chegam. Depois de ajudá-las com as malas (cada uma ficava em um quarto) fomos almoçar, sentamos na mesa e um belo frango assado pra quem estava morrendo de fome veio bem a calhar, depois fizeram as perguntas de sempre: como eu estava, como estava a casa, o trabalho, essas coisas e depois eu fiz as perguntas de sempre para as duas: como elas estavam, como estavam no trabalho, se tinha namorados, essa hora eu achava engraçado as duas ficavam mais sem graça do que não sei o que e falavam que não tinham namorados só se dedicavam ao emprego, essas desculpas esfarrapadas que as pessoas dão pra os outros pararem de fazer perguntas. Eu só achava graça, mas, me magoava um pouco o fato de que a minha filha não tivesse coragem ou tivesse medo de me falar uma coisa que estava tão na cara, então eu “cutucava” um pouco pra ver se ela tomava a iniciativa e mais uma vez não surtiu efeito a tentativa, então, aproveitamos o dia falando de coisas bobas, trabalho, amigos, diversão até que chegou a noite e fomos jantar; depois cada uma foi pro seu quarto dormir e quando já estavam dormindo, eu no meu quarto pensei “essas duas não criam coragem mesmo mas isso não vai continuar assim amanhã vou dar um jeito nisso” e dormi depois de um dia cheio.

            No dia seguinte o tempo não estava tão bom quanto o anterior. Chovia o suficiente pra obrigar as pessoas a ficarem em suas casas e lá fomos nós assistir televisão, afinal, domingo é dia de ficar em casa com a família assistindo televisão, ainda mais quando está chovendo. Estávamos assistindo um filme não lembro qual; eu estava sentada no sofá do meio e cada uma em outro sofá separados então eu percebi um olhar de uma pra outra e quando perceberam que eu estava olhando disfarçaram abruptamente, aí não agüentei, levantei mais abruptamente ainda e falei “as duas levantem-se e venham comigo agora” com uma postura bem séria do tipo quem manda sou eu e quero ver você dizer alguma coisa contra. As duas levantaram na hora em que eu falei, naquele momento pude sentir o pânico nas duas. Sei que parece errado o que estava fazendo, mas, depois nós rimos muito da situação. Na cozinha tem uma mesa redonda pequena, pra quatro pessoas; ela é de vidro transparente mas está sempre coberta com um pano branco. Quando chegamos na cozinha arrumei a mesa de modo a ficar uma cadeira de um lado e duas, uma ao lado da outra do outro lado da mesa. Quando elas viram parecia que eu tinha jogado um balde de água gelada nas duas. Pareciam nem respirar. Mandei que sentassem e prontamente, sem fazer nenhum ruído, elas sentaram com um certo olhar de pânico na cara, eu sentei na cadeira que estava separada, olhei pra duas e perguntei “e aí ninguém tem nada pra me dizer?” Aí sim as duas se olharam e se não tivesse o pano branco na mesa podia jurar que elas estavam de mãos dadas. Então, a amiga de minha filha começou a falar, mas, eu a interrompi e disse “eu quero ouvir da minha filha se não se importa”. Sei que parece ter sido um pouco grosseiro mas eu realmente queria ouvir da minha filha, eu não tinha criado ela pra ter medo do mundo, muito menos pra ter medo de mim. Pude sentir que uma estava apertando a mão da outra para conseguir coragem pra falar e então finalmente ela respirou fundo, olhou nos meus olhos e falou “mãe nós estamos juntas como um casal há algum tempo, desculpe não ter falado nada antes, mas, eu não tive coragem e ....” interrompi ela nesse ponto da explicação, me virei pra amiga dela e perguntei friamente: “Agora você, quais são as suas intenções com minha filha?” Ela respondeu tão fria quanto eu tinha perguntado. “As melhores que você poder imaginar!” Aí me virei pra minha filha e fiz a mesma pergunta “Quais são as suas intenções com ela?” e ela respondeu do mesmo jeito “As melhores que você possa imaginar!” fiz uma pergunta a qual a resposta era óbvia mas eu fiz assim mesmo “Vocês se amam?” e como se tivessem combinado pra falar quando alguém fizesse esse tipo de pergunta as duas falaram juntas em uníssono “Sim!” nessa hora me levantei bruscamente assustando as duas dei a volta na mesa e fiquei atrás delas. Elas se levantaram e me encararam e eu perguntei “o que vocês estavam pensando? Porque não me contaram antes? ” Elas ficaram na defensiva falaram “Não importa o que você pense, ficaremos juntas você aceitando ou não” ai eu falei “ Ah, então não importa o que eu penso né? Então repito a pergunta: por que não me falaram antes?” as duas se entreolharam e começaram a falar que tinham medo da minha reação, então finalmente parei de fingir olhei para as duas e falei “Eu já sabia, se duvidar já sabia antes mesmo de vocês saberem” olhei nos olhos da minha filha e falei “O que me magoa é que você não teve coragem de me contar, como você mesma disse ainda pouco, eu entendo o seu medo, ainda assim me magoou  porque não te criei pra ter medo, muito menos medo de mim” a esse ponto da história minha filha estava só lágrimas, pediu muitas desculpas, falou que não iria mais esconder nada de mim e me deu um abraço ainda chorando. A abracei e fiz como quando ela era criança falei no ouvido dela “Calma, agora já passou, fique tranquila” soltei do abraço e fui falar com a amiga da minha filha, minha filha ainda estava tensa com a situação, mas, a amiga dela estava se segurando pra não mostrar mais reação do que já tinha mostrado. Olhei nos olhos dela e perguntei mais um vez “você ama minha filha?” como antes a resposta óbvia veio de novo “sim” fiz outra pergunta “você vai cuidar dela pra mim?” e ela respondeu de novo “sim”, então eu a abracei e disse no seu ouvido agora você também é minha filha por isso não tenha medo de me contar nada daqui pra frente também, alí sim ela caiu no choro e como fiz com minha filha falei no seu ouvido “Calma, agora já passou, fique tranquila” quando todo mundo parou de chorar repeti que eu já sabia a tempos e que me incomodava o fato de elas não me falarem nada e que há dois dias atrás tinha decidido que se elas não falassem de livre e espontânea vontade eu perguntaria. Elas ficaram surpresas, pedi desculpa pelo jeito que eu levei a discussão naquele momento mas eu queria ver como elas iriam se comportar naquela situação, elas falaram que me desculpariam se eu desculpa-se o tempo que elas não me disseram, então nos abraçamos e eu disse “Podem contar comigo no que precisarem, somos uma família e uma família fica unida” e aí começamos a conversar sobre os medos delas, preocupações, e sobre a vida que elas não me contavam por um medo que agora não existia mais.

            E assim “termina” a historia da minha filha e da amiga dela, “termina” entre aspas porque na verdade a historia só está começando, o que termina na verdade é o segredo entre nós que nunca deveria ter existido.


Fim

18/12/2008


Quem leu até o final muita obrigada!

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